Diga-me quando abrirá os olhos. Quando vai sair desta ilha de sonhos, desse paraísso infantil. Dá-me um prazo para crescer, para revelar minha identidade. Qual o teu lugar no mundo? Mas, primordialmente, quem és tu? Se sou produto do meio, por que reluto em aceitá-lo? Tem coisa que, por mais óbvia que seja, é invisível ao principal interessado. Como acreditar em uma pessoa estranha, com o dobro da sua idade e, ainda por cima, montá-la num cavalo branco? Se não é uma fantasia infantil, não sei o que é. É insólito! Um passarinho azul me contou... Uma bofetada de travesseiro, um choque de realidade, da ordem de milivolts - a realidade é até gentil comigo, se eu for analizar as possibilidades. Não é que eu queria reviver algum passado. A superfície tende a manter-se estável, mas tudo que vem abaixo dela é turvo, é turbulência, não há ordem - apenas elementos entregues ao dadaísmo. O substrato disso tudo são fotografias, é aquilo que se lê, são fotos para ver, são apenas impressões de um momento. Só o habitante reconhece sua casa - aquele que viaja para lugares muito diferentes não conhece de fato lugar nenhum. É preciso viver um lugar para conhecê-lo de fato - mas principalmente, fora do aquário particular. Para assegurar minha própria sobrevivência, preciso aprender a nadar em mar aberto. Os tubarões não terão piedade.
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Rachel Gonçalves
Gosto do sol, gosto da brisa, de abraço e de preguiça. Gosto da noite, de dança, de vodka e aventura. As luzes da cidade, os primeiros raios de sol no horizonte. Como coisas tão diferentes podem ser tão próximas, como coexistem com tanta facilidade? Sabedoria e estupidez. Seria como o dia e a noite, um ciclo normal da vida, um após o outro e assim todos vivem? Não acho que seja assim - não mais pelo menos. Quando você acerta ninguém lembra, quando erra ninguém esquece. Não queria que fosse assim, mas também faço parte do conjunto chamado "os outros". Eu também sou assim. É parte do conjunto, o meio influencia o indivíduo - e se ele não se adapta, sofre. E sofrendo, a solução seria fugir? Devo perguntar ao próprio Aluísio de Azevedo. João Romão pode ser cruel com os que não se adaptam a realidade de seu lugar. Penso que daqui a uns 2 anos ou mais eu possa voltar. Mas será que seria a solução? É preciso queimar pontes, para que inimigos não venham a nos perseguir, nem que nós mesmos sejamos tentados a voltar. Dói? O fogo queima...
-> Isso são coisas que você fez, não o que você é. Sua essência é boa, nunca se esqueça disso. Guarde-a bem junto ao coração, e não atire pérolas aos porcos.

