Se for pensar direitinho, coerência não existe. Não falo como crítica, mas como observadora - quem sou eu para destoar da massa? Já discuti esse assunto antes. O fato é que todos mudam de opinião, e o dito fica pelo não dito. De dia Sol e de noite a Lua - viu, nem o planeta foge à própria regra. Talvez seja a única coisa coerente consigo mesma. Pode ser que o certo seja não tentar achar a resposta, já que nem bem sabemos qual pergunta devemos fazer. Há quase um ano, estava em pesquisando simbologias na literatura de uma forma geral. Deti-me na água. Tanto em livros quanto em filmes, a imagem de água corrente evoca mudanças de rumo. E o clima em Recife nunca esteve tão louco. Eu nunca soube o que trás o futuro, mas sei que estou aqui, e não pretendo fugir. E não entendo. A verdade foi criada para ser exata - mas a cada dia fico mais convencida de que se há algo inexato nessa vida, é a própria verdade. Quando saio de casa me pedem para levar um guarda chuva, mas às vezes chego a pensar que gosto mesmo é de banho de chuva. Não gosto da vida em banho maria. Só serve para fazer desandar receita de bolo.
Rachel Gonçalves
Medo de amar? Eu tenho. É estranho, porque amor trás felicidade, mas acessível a poucos, aqueles que não tem medo de se arriscar. Mas é aí que está. O medo de um "não" acaba sendo mais forte. É estranho falar sobre um medo tão comum enquanto o avião em que estou inicia o pouso no Rio de Janeiro. A aeromoça me mandou recolher a mesinha, só me resta o braço da cadeira, mas tudo bem, vamos adiante. Devem haver medos maiores, como um aicdente aéreo, despressurização, etc. Mas o que realmente me apavora são meus próprios sentimentos. Estranha, eu? Nem tanto. Um acidente acontece num dado momento e pronto. Só a emoção fica. O que tortura de verdade não é a sensação física, mas o calor do momento. Ele é latente. Como todas as dores de amor. O peso de um "não" é suficiente para abalar as mais sólidas auto-estimas. O pouso foi autorizado, o avião já vai pousar. Pensei que o medo de amar pode ser uma forma de medo de ser livre. Vai dizer que o ser humano não tem medo de ser livre? Muitos querem asas, mas morrem de medo de avião - medo de voar. Quanto mais alto o vôo, mais dura é a queda. Mas no que diz respeito a sentimentos, quem decide se o pouso será suave ou não não é a máquina, mas o próprio piloto.
Rachel Gonçalves
Dança teu momento na vida. Ballet é dança comunista: cheia de sonhos, projetos e utopias. É a dança da meina de 15 anos que acredita no amor e na puzera; aquela que quer se destacar, mas faz tudo igual às outras. Menina bonita, mas muitos enjoam dela nos primeiros 15 minutos. Ela ainda precisa sair de seu mundo para se descobrir. Mais tarde, ela descobre que precisa de mais do que apenas sonhos para sobreviver - é quando vira adulta. Descobre a Dança de Salão, a mais capitalista das danças, coo forma de buscar em seu par o que lhe apazigua o cantar. A ópera da vida torna-se menos eloquente, e as notas mais afinadas. Ela acerta o tom e passa a sorrir menos - mas melhor. O olhar fica mais denso e profundo, fala por sí. Deixa-se ser guiada por outrém, mas canaliza as atenções da platéia para seus movimentos, não importa o ângulo da cena. Vez por outra porém, ela cansa. Seu brilho mingua e a voz da razão a conduz para o melhor, mesmo que não o melhor para ela. Pode ser que o melhor não seja egoísta, nem mesmo a favoreça. Eis o socialismo das marchinhas, altruístas e ritmadas. Não perde o molejo, nem busca estabelecer uma figura de destaque. Pelo menos na teoria, trata todos como iguais. Não que uma dança seja melhor que outra, correspondem apenas a diferentes momentos e propostas de vida. Cada qual que dance como seu pés acharem melhor.
Rachel Gonçalves
Aonde é que isso vai parar? Quando parece que estou desfazendo um nó, percebo estar atando outros 5. Não daria para tudo ser mais simples? Até daria, mas acho que daria um jeito pra complicar, ou mesmo achar complicado. Complexidade é sinônimo de vida de gente grande. Quanto mais enrolado você estiver, e quanto menos demonstrar; esse é o termômetro da sua maturidade. Os problemas são seus mesmo, e ninguém tem nada haver com isso. Cada um leva a pedra que a força possa carregar. A fraqueza então não está na dimensão do seu problema, mas COMO você carrega-o. Acho uma forma saudável de encarar a vida. Se tudo fosse fácil, tudo seria tão brega... Ouvir um “eu te amo” num jantar a luz de velas, receber flores com o café da manhã na cama... Se tudo fosse perfeito, o que sobraria para sonhar? Os melhores sonhos, por exemplo, são sonhados de olhos abertos; que aliás, a rigor, nem sonhos são. Respira, pequena. Vai dançar a tua vida. Solo, se preciso.
Rachel Gonçalves
Deitada numa rede, deixo os acordes do violão levarem meus pensamentos para longe. Pelo menos a iminência deles. Não consigo terminar um pensamento concreto ou mesmo explicar toda essa abstração cega e sem freios. O tangível foge do meu controle e o metafísico tenta me controlar. E fica tudo por isso mesmo? Tenho a impressão de estar irremediavelmente estacionada, em meio ao engarrafamento na Estrada da Mediocridade. Todos buzinam, enquanto servem de audiência à Voz do Brasil e lêem a Veja no banco de trás. Essa massificação de ideias está me deixando louca. E sei que ela está prestes a me pegar quando me percebo concordando com Lady Gaga e a novela das 8. Sai, sai! Não quero ser subversiva, mas valorizo minhas ideias singulares, mesmo que ninguém mais concorde. Se todos concordassem, não haveriam discussões nem guerras. E isso seria bom? Não! Os maiores avanços da humanidade foram feitos em favor de disputas, e não porque açguém achou bonitinho polimerizar um diamante, por exemplo. E ficar parada, definitivamente, não é algo bonitinho.

